segunda-feira, 25 de setembro de 2017

"Você não é macho de falar isso na minha cara"


O machismo nosso de cada dia não acomete somente mulheres.
Ele acontece muitas vezes de pai para filho. 
Pais covardes que acham que as frases do tipo "seja macho", ou "seja homem", servem como sinônimos de coragem.
Pais que não merecem um título tão nobre. 
Pais que sequer queriam ser pais, mas que precisam manter a posição para a sociedade, pelo emprego, pela imagem imaculada falsamente construída.
Tenho absoluta certeza que estes pais não falariam isso para o namorado de uma filha: "Olha, não esquece de ser macho quando sair com minha filha, tá?" . Não, claro que eles não falariam, afinal elas são "princesas", de preferência aquelas que esperam o príncipe dormindo.
Mas para o filho menino pode. Pode, porque ser macho no mundo dessas pessoas é faltar com respeito, é trair e "pegar" todas, é não aceitar ideias diferentes e muito menos ser contrariado da "autoridade" adquirida através do medo.  
Pais que acham que deve existir uma hierarquia entre filhos, só tenho uma coisa a dizer: meus pesâmes. 
E se você escutou do seu pai, não repita pro seu filho. 
A sociedade terá um machista a menos e um homem feliz a mais. 





domingo, 24 de setembro de 2017

Fitzgerald

Hoje, 24 de setembro, aniversário de Francis Scott Key Fitzgerald.
September, 24th: Francis Scott Key Fitzgerald's birthday.


              "All good writing is swimming under water and holding your breath"

            "Escrever bem é como nadar embaixo d'agua segurando a respiração"



         

sábado, 23 de setembro de 2017

Shakespeare

Conselho bom a gente replica:

Hamlet - Act I, Scene III


Yet here, Laertes! aboard, aboard, for shame!
The wind sits in the shoulder of your sail,
And you are stay'd for. There; my blessing with thee!
And these few precepts in thy memory
See thou character. Give thy thoughts no tongue,
Nor any unproportioned thought his act.
Be thou familiar, but by no means vulgar.
Those friends thou hast, and their adoption tried,
Grapple them to thy soul with hoops of steel;
But do not dull thy palm with entertainment
Of each new-hatch'd, unfledged comrade. Beware
Of entrance to a quarrel, but being in,
Bear't that the opposed may beware of thee.
Give every man thy ear, but few thy voice;
Take each man's censure, but reserve thy judgment.
Costly thy habit as thy purse can buy,
But not express'd in fancy; rich, not gaudy;
For the apparel oft proclaims the man,
And they in France of the best rank and station
Are of a most select and generous chief in that.
Neither a borrower nor a lender be;
For loan oft loses both itself and friend,
And borrowing dulls the edge of husbandry.
This above all: to thine ownself be true,
And it must follow, as the night the day,
Thou canst not then be false to any man.
Farewell: my blessing season this in thee!



Tradução - português (Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça)




quinta-feira, 8 de junho de 2017

Floripa vs Ibiza.

Dei um "curtir" dias atrás em uma foto que mostrava um dia de sol na universidade que frequento com estudantes sentados na grama, aproveitando os raios solares escassos do quase inverno. Clima descontraído, foto bonita, filtro Instagrâmico e um porém, a legenda. Esta dizia: "Berkeley de Floripa". Fiquei refletindo sobre este hábito desenfreado em compararmos (quase) tudo e todos com o outro exterior. Vou focar aqui na cidade que nasci e cresci. Florianópolis é como diz o hino local ("Rancho de Amor à Ilha"), de uma "beleza sem par". Fato este, indiscutível. O grande problema é que a pobrezinha da ilha sempre teve que lidar com pares. Analogias do tipo "a Ibiza brasileira", seguida da francesa St.Tropez e atualmente, Dubai, graças a especulação imobiliária. Claro que isto tem a ver com o projeto de um hotel nos moldes do Burj al-Arab em uma área de preservação numa cidade com traços arquitetônicos portugueses. Um imbróglio que dura anos munido da imbecilidade de poucos perante a recusa de ver além do próprio bolso. Coisa rotineira por aqui. 
Adubar a criticidade diante de falas que estamos acostumados a proliferar é importante. Reproduzimos o discurso do colonizador mesmo depois do grito de independência ou morte. Esta mentalidade do outrora colonizado de o que é de fora é melhor ou de que qualquer coisa proveniente do americano do norte tem mais qualidade, deve ser questionada. Não estou dizendo para negarmos o que gostamos do outro mas para pensarmos com mais cuidado o que este outro nos oferece ou impõe tão sutilmente que digerimos sem nem mastigar. A sabedoria de um povo vem com a aceitação de uma história e um passado, já que este é imutável, e com a mudança a partir disto de comportamentos que muitas vezes aceitamos sem perceber. A corrente mais perigosa da escravidão é a invisível.

Praça XV de Novembro

sábado, 27 de maio de 2017

3 Antônios e 1 Jobim

Programa/doc/conversa informal e rica com quatro de nossos muitos Antônios: 
Callado, Cândido, Houaiss e Jobim.

    





Viúva de Antônios 

Quatro mosqueteiros pensantes 
Brasileiros vorazes 
Daquela espécime rara 
Que com arte sara 

Sou viúva de Antônios 
De maestros das palavras 
De diplomatas musicais 
De contadores de causos 

 Sou viúva de Antônios 
 Velando seus rastros 
Manejando traços 
Viajando em utópicos abraços 

Ah, Antônios 
Que difícil ficou pra mim 
A tarefa de lidar diariamente 
Com esse multiplicar de saudades. 


Maria Muller

sábado, 20 de maio de 2017

Memórias de um Vestido / Memories of a Dress

The waltz of yore seemed to create an atmosphere of candour in the old hall of the far south province. It was actually a big masquerade ball and she only realized this fact after trying on that same white dress ten years later. It still fits her perfectly, however the dėbutant mind has been lifted and uncovered. Just like the masks. 

A valsa de outrora parecia criar uma atmosfera de inocência no antigo salão da longínqua província sulista. Na verdade era um grande baile de máscaras e ela só percebeu este fato após provar aquele mesmo vestido branco dez anos depois. Ainda servia perfeitamente em seu corpo, porém a mente de debutante havia sido erguida e descoberta. Assim como as máscaras.




sexta-feira, 12 de maio de 2017

Quer enriquecer? Leia.

O Estado de S. Paulo 12 Maio 2017 | 09h44 


O crítico literário e sociólogo Antonio Candido, dono de uma das obras mais fundamentais da intelectualidade brasileira, morreu aos 98 anos. Ele estava internado no Hospital Alberto Einstein, em São Paulo, com problemas no intestino, de acordo com Edla Van Steen. O filósofo Adauto Novaes, amigo de Candido, disse que ele mantinha a lucidez e conversava sobre atualidades. “Estava muito lúcido, era incrível. A gente conversava sempre. De repente isso aconteceu. A gente perdeu mais do que um amigo, mas o espírito de um tempo. Ele atravessou vários momentos da história, mesmo os sombrios, sem perder nenhum sentido dos valores, de todo o julgamento das coisas. Era de uma sutileza incrível. A dificuldade das coisas que ele escrevia estava nessa simplicidade. Discutia tudo o que estava acontecendo no País. Nunca perdia o fio da história. Ele seguiu o curso do tempo, em todos os momentos do pensamento." Autor de livros fundamentais como Introdução ao Método Crítico de Silvio Romero (1944), Formação da Literatura Brasileira (1959), Literatura e Sociedade (1965), entre muitos outros, Candido formou uma maneira de pensar a literatura brasileira que influenciou toda a crítica literária do País desde então.


Reportagem: 



quinta-feira, 4 de maio de 2017

David Lynch

Compartilho aqui o livro digital "David Lynch, multiartista" no qual colaborei com o capítulo sobre o filme Lost Highway. Pra quem curte o diretor ou simplesmente tem curiosidade sobre, eu recomendo.
Para baixar o livro, só clicar AQUI (você será redirecionado para o 4shared)





Release:

O livro digital David Lynch, multiartista é produto de colaboração entre pesquisadores de diferentes universidades nacionais.
O volume aborda o trabalho do cineasta e artista David Lynch em suas diversas facetas, agregando discussões sobre seus longas-metragens, seu projeto musical, seus projetos em vídeo, seus curtas-metragens, seu trabalho na televisão e suas ideias sobre meditação e criatividade.
A proposta do livro foi reunir textos de escrita mais reflexiva, de voz e linguagem pessoal, sem a preocupação de fechar as pontas discursivas, tal como é de praxe nos formatos duros da academia.
O volume foi pensado com foco em um público amplo de interessados em David Lynch – cinéfilos, cineclubistas, estudantes, fãs – mas temos certeza que scholars também encontrarão conteúdos significativos e um conjunto de informações relevantes.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

All this I did without you




Tom Hiddleston lendo uma carta de amor escrita por Geral Durrel para Lee McGeorge. Uma das cartas mais lindas que eu já li/escutei. Em inglês.

Letters Live: http://letterslive.com/letter/all-this-i-did-without-you/

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Nothing but words

there is a constant sadness
inhabiting every attempt of smile.

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memórias perpetuam dores

meio curadas, meio esquecidas
na esquina do antes vivido
um presente por ora, com hora
marcado num futuro
imprevisível.

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domingo, 22 de janeiro de 2017

Lápis


Basta de tapas.

Eu normalmente não levanto questões sociais e políticas no blog, mas defronte as circunstâncias atuais, calar - ou deixar de escrever sobre - é o pior caminho. 
Acordo e me deparo com a notícia que a Rússia está com um projeto de lei para descriminalizar a violência doméstica. Sim, você leu bem: des-cri-mi-na-li-zar. Ou seja, aquele velho bordão conhecido e cantado do "um tapinha não dói". Não dói se for consentido (concessão: s.f. Permissão para realizar algo; autorização, licença) mas caso contrário, provoca danos emocionais que doem mais que o próprio tapa. O que a leis da Rússia tem a ver com a gente? Tudo. Quando um país cogita normalizar um tapa, esta atitute ressoa em todos. Na realidade todas, porque na maioria dos casos o tapa vem do marido ou do namorado. Aqueles mesmos que dizem "eu te amo, prometo que não vou fazer de novo". Sabe em que lugar o Brasil está no ranking de feminicídios? QUINTO LUGAR (fonte: Mapa da Violência 2015 - Homicídio de Mulheres -no Brasil ) Os espaços que a violência contra a mulher atinge percorrem todos os becos: da casa da periferia até o lar dos bons moços, engravatados, pais de família, que urrem contra a corrupção de verde e amarelo num dia e no outro deixam um roxo no corpo da mulher. A lei brasileira tem que ser mais eficaz? Sem dúvida. Mas não silencie. Não podemos silenciar ou iremos retroceder. Se a nossa voz não for mais alta, estaremos compactuando com uma sociedade que foi moldada para as mulheres acreditarem que o valor delas se limita as fronteiras da cozinha. Um séquito de homens que entoa " ela é louca" ou " essa mulher é histérica" como ordem e progresso, que esquecem do útero que vieram e que violência não se atém somente ao campo físico. Um tapa muitas vezes derruba, mas mesmo no chão continuamos lutando. Porque é preferível rastejar por uma causa, do que fingir que ela não existe. E não esqueça que pra levantar, basta que uma ajude a outra. E somos muitas.




                                     Central de atendimento à Mulher






                         SECRETARIA ESPECIAL DE POLÍTICAS PARA AS MULHERES 
                         MINISTÉRIO DA JUSTIÇA E CIDADANIA: http://www.spm.gov.br



sábado, 12 de novembro de 2016

Viva Lima!

O autor homenageado de 2017 na Festa Literária Internacional de Paraty será Afonso Henriques de Lima Barreto.



Jabuti



Pra quem não sabe, o Prêmio Jabuti é o mais importante em termos literários aqui no Brasil. São 27 categorias, entre elas Ficção, Tradução, Biografia, Contos & Crônicas e Poesia.

Alguns dos vencedores deste ano:


Poesia

1º Lugar – Título: Agora Aqui Ninguém Precisa de Si – Autor(a): Arnaldo Antunes – Editora: Companhia das Letras
2º Lugar – Título: Ópera de Nãos – Autor(a): Salgado Maranhão – Editora: 7Letras
3º Lugar – Título: Da Lua Não Vejo a Minha Casa – Autor(a): Leonardo Aldrovandi – Editora: V. de Moura Mendonça Livros (Selo Demônio Negro)

Romance
1º Lugar – Título: A Resistência – Autor(a): Julián Fuks – Editora: Companhia das Letras
2º Lugar – Título: Bazar Paraná – Autor(a): Luis S. Krausz – Editora: Benvirá
3º Lugar – Título: Desesterro – Autor(a): Sheyla Smanioto – Editora: Record

Tradução
1º Lugar – Título: Hamlet – Tradutor(a): Lawrence Flores Pereira – Editora: Companhia das Letras
2º Lugar – Título: Poética – Tradutor(a): Paulo Pinheiro – Editora: Editora 34
3º Lugar – Título: O Sumiço – Tradutor(a): Zéfere – Editora: Autêntica


                       

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Pausa porque hoje é sexta, dia de maldade


Hoje é dia de cheirar muito livro novo.  Misturar prosa e poesia. Passar trote pro Nobel dizendo que é o Bob. Dá spoiler da história pro amigo. Ignorar a nova ortografia e colocar trema em conseqüencia., pingüim e tranqüilo. Perguntar pro atendente se tem aquele livro de capa verde.

É dia de tatuar “tu te tornas eternamente responsável por tudo o que cativas” no braço, de ir no lançamento do livro do Youtuber e gritar que é golpe, de elogiar o texto do colega pra não perder a amizade, de criar pseudônimo, de arrumar a estante em ordem alfabética. De discutir se a Capitu traiu Bentinho ou se o filme é melhor que o livro. Ligar pra editora e perguntar se já leram o manuscrito.

Hoje é dia de ir pra balada com a camiseta do Bukowski porque a do Baudelaire está pra lavar. Confundir Derrida com Deleuze. Tentar usar a máquina de escrever pra ser diferente. Acender um charuto e sentir saudade do cheiro do mimeógrafo. De encher aquele texto com adjetivo, esperar Godot e dizer que sua profissão é escritor.

Hoje é dia de maldade.


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

109º Nobel de Literatura

                                 Faltam poucas horas para sabermos o nome deste ano. 
              Sou do time da Lygia Fagundes Telles. Vamos aguardar.
     

                                                   Atualização da postagem:

E o 109º Nobel de Literatura foi para o cantor/compositor Bob Dylan. 
Segundo Compagnon, em seu livro O Demônio da Literatura, "cinco elementos são indispensáveis para que haja literatura: um autor, um leitor, um livro, uma língua e um referente." Uma boa hora para refletir sobre o que é literatura. Talvez não seja uma arte limitante, mas heterogênea e embarque em conjunto com outras formas de expressão. Talvez só esteja solitária em algum canto, clamando por resgate. Talvez tenha se metamorfoseado em algo para além páginas. Não sei. Seja qual for a resposta (se é que há uma) parabéns, Dylan.




sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Robert Darnton e Alberto Manguel





Robert Darnton e Alberto Manguel falam sobre livros. Um bate-papo mediado pelo escritor Sérgio Rodrigues. Pra quem gosta de literatura é imperdível.



Canal do Youtube da editora Companhia das Letras: 


Robert Darnton é pioneiro nos estudos sobre a história do livro. É professor e diretor da biblioteca da Universidade de Harvard. Em seu livro mais recente, "Censores em ação", Darnton recria três momentos em que a censura restringiu a expressão literária. Conheça mais sobre o autor: http://bit.ly/2bHpD71

Alberto Manguel acaba de lançar no Brasil seu mais novo livro, "Uma história natural da curiosidade", no qual mapeia os textos e autores que o inspiraram ao longo de sua vida como leitor. Atualmente, Manguel dirige a Biblioteca Nacional da Argentina, cargo que já foi ocupado por Jorge Luis Borges. Conheça mais sobre o autor: http://bit.ly/2bHqhRX

terça-feira, 6 de setembro de 2016

domingo, 4 de setembro de 2016

O Jogo de Damas

Meu conto "O Jogo de Damas" na Ler&cia das Livrarias Catarinense/Curitiba - a revista já está disponível. É só passar lá. Abraços literários.



domingo, 3 de julho de 2016

Literatura XX/XY

Aproveitando o evento da 14º Festa Literária Internacional de Paraty 2016 que homenageia a escritora Ana Cristina César, colo aqui um pequeno trecho de um ensaio escrito por ela no jornal Folha de S. Paulo, no caderno Folhetim em 12 setembro de 1982. 



Riocorrente, depois de Adão e Eva...
Ana Cristina César

(...)
A primeira vez que escrevi sobre literatura de mulher curiosamente não falei por mim nem de mim diretamente. Usei diversas personas que se contradiziam entre si. Alguém me pedira uma resenha sobre as antologias de Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa editadas pela Nova Fronteira. Quando recebi os dois livros, não pude deixar de pensar que estava recebendo para o chá duas senhoras. Anfitriã nervosa, me vi rodeada de convivas variados (e um penetra) num mad tea-party em que a questão era sobretudo o que fazer com as duas senhoras. Evidentemente que a resenha dançou. E ficou assim a minha festa:
Roger Bastide (1) abria com engraçadas perguntas retóricas que estavam secretamente na cabeça de todos nós, tipo "Haverá uma poesia feminina distinta, em sua natureza, da poesia masculina?", extraídas justamente de uma resenha que ele conseguira fazer em 1949 sobre Cecília e Henriqueta. Ele também, trinta anos atrás, ao receber livros das duas, começara se perguntando se tinha algum sentido especial aquelas duas autoras serem mulheres.
Na resenha de 1949, Roger Bastide cedo abandonava suas perguntas como sendo meras dúvidas do senso comum que seria preciso superar pela via da sociologia. E as recalcava com uma velada autocensura e uma proposta final involuntariamente provocante.
Dizia ele, negando que houvesse nas poetisas em questão qualquer traço feminino:

"No fundo, a idéia de procurar uma poesia feminina é uma idéia de homens, a manifestação, em alguns críticos, de um complexo de superioridade masculina. Precisamos abandoná-la, pois a sociologia nos mostra que as diferenças entre os sexos são mais diferenças culturais do que diferenças físicas. Diante de um livro de versos, não olhemos quem o escreveu, abandonemo-nos ao prazer."


5. Diferença alguma

Duplo abandono ele nos propunha. Me lembrou daquela Lebre Louca do País das Maravilhas que oferecia vinho a Alice para em seguida dizer que não havia vinho algum. Nesse mesmo chá a própria Alice se queixava: "Bem que vocês podiam ocupar melhor o tempo do que ficar fazendo charadas que não têm resposta".
Escrita de mulher: uma charada sem resposta?
Só as perguntas são possíveis?
Na minha festa, a preocupação era legitimar outra vez as perguntas do primeiro convidado, 
levar a sério ao menos o impulso de perguntá-las, apesar da sua irônica retórica. Eu não podia simplesmente abandonar as minhas dúvidas. Mas nesse momento entravam em cena outras vozes, as vozes de alguns críticos que, ao contrário do que o sociólogo recomendava, liam nas poetisas uma essencial "delicadeza feminina". Estava travada uma disputa (ou uma armadilha): uns tentando ver a sua idéia de feminino em poesia feita por mulher, outros tentando não ver diferença alguma.
Outras vozes entravam no debate, querendo escapar da armadilha, se perguntando sem parar como escapar dessa. Seria possível mexer com "literatura de mulher" (seja lá o que isso for) sem ocupar o lugar do feminismo nem cair na confusa ideologia do eterno feminino? 

(...)


O link para o texto completo: Riocorrente, depois de Adão e Eva... por Ana Cristina César
O link para a Festa Literária Internacional de Paraty: http://flip.org.br

(1) Roger Bastide: sociólogo e antropólogo francês, estudioso da Literatura Brasileira.