terça-feira, 28 de julho de 2009

short story...

Ela se chama Ella, urbana, esbelta. Ele é oito anos mais novo, interiorano, robusto.

No primeiro encontro, Ella o leva para uma sessão Lynch de cinema.

Uma hora e quarenta e três minutos depois, em uma manobra suicida, ele pede um beijo á Ella. Ela doa um, porque para Ella um beijo nada mais é que uma caridade.

Começam a namorar após uma semana. Ella se sente uma pré-adolescente de novo. Graças à ele.

De filmes cult aos blockbusters, de magret de canard aos calzones congelados, do Brunello di Montalcino ao Velho Barreiro, Ella vai se adaptando, afinal nunca foi besta e pensa: "alguém tem que ceder".

Ele é esforçado, mas no dia do aniversário dela, o dito cujo comete o erro fatal de esquecer de comprar um presente.

Para ela existem duas datas deveras importantes: o dia do seu nascimento e o dia em que o tratado de Kyoto foi assinado.

Ele lhe dá parabéns e não comenta o porquê do esquecimento. Ela fica "p" da vida mas continua fingindo que vive no país das maravilhas.

Mal sabe ele o que está por vir.

Ella começa a bolar planos mirabolantes para ele terminar com ela. Só falta fingir-se de morta.

Pouco tempo depois ele termina, achando que Ella havia o traído. Não, ela nunca faria isso. Ou faria, mas não fez. Não dessa vez.

Anos depois, Ella ainda sente falta dele e para matar a saudade senta na sala escura com Lynch agarrada a sua caipirinha de lichia (camuflada na garrafinha de água da academia) com a esperança de que ele venha e lhe peça mais um beijo, só então ela poderá retrucar: " não sem antes você me dar meu presente".
Afinal, Ella sempre tem a última palavra.

Fim.