sábado, 6 de outubro de 2012

Jorge&Zélia

Reproduzo aqui, trecho de uma carta entre Jorge Amado e Zélia Gattai. 
Uma das várias correspondências contidas no livro Toda a Saudade do Mundo - A Correspondência de Jorge Amado e Zélia Gattai. Do Exílio Europeu à Construção da Casa do Rio Vermelho (Companhia das Letras)


(...)

Falas em tua carta eu “que me divirta”. Se a isso chamas divertir (e eu chamo), então tenho me divertido. Mas se empregas o termo em outro sentido (e assim me pareceu) então te enganas. Creio que se morresse hoje e minha vida (no particular) fosse julgada desde que te conheci, eu entraria no céu imediatamente e vestiria um véu de virgem. Fui a 3 cabarés, no domingo, na companhia pouco instrutiva, no particular, do Scliar. Os dois primeiros pareceram-se sem nenhum interesse. “Show” de mulheres nuas (regularmente velhas), num inteiramente, noutro como em qualquer teatro de revistas daí. O terceiro era um cabaré de frescos. Muito sórdido mas, pelo menos, diferente. Essa foi a minha vida “noturna” de Paris. Quanto a [pianista] Anna Stella,eu a vi duas vezes antes dela viajar (está na Inglaterra). Uma vez recebi, por intermédio do Consulado Brasileiro, um convite para assistir e participar de uma irradiação em televisão. Fui com Scliar. Lá encontrei, entre outros brasileiros, a Anna Stella (gorda e feia) que tocou. Eu a vi outra vez, também com vários outros brasileiros, num ato onde fui com Aragon. E só. E sobre o assunto basta também pois bem sabes que a senhora esta não me interessa em absoluto. Nem outra senhora qualquer. Interessa-me tu, meu bicharoco lindo e louco”.

(Revista Bravo - http://bravonline.abril.com.br/materia/ha-quem-diga-sou-sucesso-paris)