sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Meu relógio de corda

                             Preâmbulo às Instruções para dar Corda no Relógio

Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você - eles não sabem, o terrível é que não sabem - dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrinas das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.

                                                                                                 Julio Cortázar


                                      Preamble to the Instructions on How to Wind a Watch 
                                                              (translation: Paul Blackburn)



Think of this: When they present you with a watch they are gifting you with a tiny flowering hell, a wreath of roses, a dungeon of air. They aren't simply wishing the watch on you, and many more, and we hope it will last you, it's a good brand, Swiss, seventeen rubies; they aren't just giving you this minute stonecutter which will bind you by the wrist and walk along with you. They are giving you—they don't know it, it's terrible that they don't know it—they are gifting you with a new, fragile, and precarious piece of yourself, something that's yours but not a part of your body, that you have to strap to your body like your belt, like a tiny, furious bit of some­thing hanging onto your wrist. They gift you with the job of having to wind it every day, an obligation to wind it, so that it goes on being a watch; they gift you with the obsession of looking into jewelry-shop windows to check the exact time, check the radio announcer, check the telephone service. They give you the gift of fear, some­one will steal it from you, it'll fall on the street and get broken. They give you the gift of your trademark and the assurance that it's a trademark better than the others, they gift you with the impulse to compare your watch with other watches. They aren't giving you a watch, you are the gift, they're giving you yourself for the watch's birthday.

                                                                                                      
                                                                                                   Julio Cortázar
                                                                                                
  
maria muller
Cortázar - foto: Antonio Gálvez & meu relógio de corda