segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Parabéns, Jorge!

                                                           

                                                            Obá de Xangô


   “Eu acho que o escritor verdadeiro é aquele que escreve sobre o que ele viveu” afirmava Jorge Leal Amado Faria.
   O espírito criador do itabunense desconhecia fronteiras, transitava entre línguas e fazia questão de flertar com tabus.
   Sua famigerada carreira inicia com a tiragem de modestos mil exemplares do romance “País do Carnaval”, ocasião que irá desembocar em outros tantos títulos e traduções para diversos idiomas, içando o escritor ao cargo de guia oficial das ladeiras, ruas e causos baianos.
  Possuidor de um olhar pitoresco diante das dicotomias da vida, não se fez de rogado e embutiu nas palavras uma roupagem distinta ao que havia sido testemunhado até então. Somado a isso, o dom fabulador assinou a carta de alforria para o povo, com todo seu sincretismo cultural e religioso, tornando-o protagonista e não somente mero coadjuvante da própria história.
   Somos postos frente a frente com este vigor através da composição majestosa de suas personagens e dos trejeitos peculiarmente adornados que lhes foram concedidos, da profusão de cores nos cenários percorridos, do encanto que paira em cada página permitindo sentir o gosto da moqueca de Tieta ou do vatapá de Dona Flor, seja dentro de um ônibus em movimento, seja no balanço da rede contemplando o mar.
   Seu poderio literário conquista força com o advento da televisão, onde eclodem imagem e som de cenas antes exclusivas do imaginário, estreitando assim a ligação junto ao leitor, que agora se converte em telespectador do livro outrora lido e com aqueles que previamente não tiveram a oportunidade de entranhar-se nos textos escritos por Jorge. 
  Desde a primeira adaptação de “Gabriela, cravo e canela” em novela com transmissão pela TV Tupi em 1961, que a Bahia de Todos-os-Santos começa a se transformar na Bahia de todos os brasileiros. Estas releituras realizadas para o formato não impresso mantiveram o cerne de apelo popular das tramas propiciando deste modo a identificação dos que assistem as mesmas.
   Vale ressaltar também o papel das figuras femininas nestas obras, uma vez que incorporadas em carne e osso conservaram a essência fértil do chão explorado com os pés descalços e da aura apimentada de menina-mulher, mistura de traquinagem e sensualidade.
   Outro fator que corrobora na migração para a teledramaturgia está em uma narrativa que mesmo fictícia aconchega o real, que enaltece o exótico despindo preconceitos e une elementos que transcendem a barreira do tempo. Ante tal fartura amadiana o público se curva.
   O êxito televisivo da literatura de nosso Imortal Amado confirma a maestria do homem que escreveu e viveu intensamente, não se submetendo ao papel de simples observador. E o cacau nunca mais foi o mesmo.   
                                                                         
                                                                                       Maria Muller   
texto escrito em resposta à pergunta "Por que a literatura de Jorge Amado faz sucesso também na televisão?"