domingo, 3 de julho de 2016

Literatura XX/XY

Aproveitando o evento da 14º Festa Literária Internacional de Paraty 2016 que homenageia a escritora Ana Cristina César, colo aqui um pequeno trecho de um ensaio escrito por ela no jornal Folha de S. Paulo, no caderno Folhetim em 12 setembro de 1982. 



Riocorrente, depois de Adão e Eva...
Ana Cristina César

(...)
A primeira vez que escrevi sobre literatura de mulher curiosamente não falei por mim nem de mim diretamente. Usei diversas personas que se contradiziam entre si. Alguém me pedira uma resenha sobre as antologias de Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa editadas pela Nova Fronteira. Quando recebi os dois livros, não pude deixar de pensar que estava recebendo para o chá duas senhoras. Anfitriã nervosa, me vi rodeada de convivas variados (e um penetra) num mad tea-party em que a questão era sobretudo o que fazer com as duas senhoras. Evidentemente que a resenha dançou. E ficou assim a minha festa:
Roger Bastide (1) abria com engraçadas perguntas retóricas que estavam secretamente na cabeça de todos nós, tipo "Haverá uma poesia feminina distinta, em sua natureza, da poesia masculina?", extraídas justamente de uma resenha que ele conseguira fazer em 1949 sobre Cecília e Henriqueta. Ele também, trinta anos atrás, ao receber livros das duas, começara se perguntando se tinha algum sentido especial aquelas duas autoras serem mulheres.
Na resenha de 1949, Roger Bastide cedo abandonava suas perguntas como sendo meras dúvidas do senso comum que seria preciso superar pela via da sociologia. E as recalcava com uma velada autocensura e uma proposta final involuntariamente provocante.
Dizia ele, negando que houvesse nas poetisas em questão qualquer traço feminino:

"No fundo, a idéia de procurar uma poesia feminina é uma idéia de homens, a manifestação, em alguns críticos, de um complexo de superioridade masculina. Precisamos abandoná-la, pois a sociologia nos mostra que as diferenças entre os sexos são mais diferenças culturais do que diferenças físicas. Diante de um livro de versos, não olhemos quem o escreveu, abandonemo-nos ao prazer."


5. Diferença alguma

Duplo abandono ele nos propunha. Me lembrou daquela Lebre Louca do País das Maravilhas que oferecia vinho a Alice para em seguida dizer que não havia vinho algum. Nesse mesmo chá a própria Alice se queixava: "Bem que vocês podiam ocupar melhor o tempo do que ficar fazendo charadas que não têm resposta".
Escrita de mulher: uma charada sem resposta?
Só as perguntas são possíveis?
Na minha festa, a preocupação era legitimar outra vez as perguntas do primeiro convidado, 
levar a sério ao menos o impulso de perguntá-las, apesar da sua irônica retórica. Eu não podia simplesmente abandonar as minhas dúvidas. Mas nesse momento entravam em cena outras vozes, as vozes de alguns críticos que, ao contrário do que o sociólogo recomendava, liam nas poetisas uma essencial "delicadeza feminina". Estava travada uma disputa (ou uma armadilha): uns tentando ver a sua idéia de feminino em poesia feita por mulher, outros tentando não ver diferença alguma.
Outras vozes entravam no debate, querendo escapar da armadilha, se perguntando sem parar como escapar dessa. Seria possível mexer com "literatura de mulher" (seja lá o que isso for) sem ocupar o lugar do feminismo nem cair na confusa ideologia do eterno feminino? 

(...)


O link para o texto completo: Riocorrente, depois de Adão e Eva... por Ana Cristina César
O link para a Festa Literária Internacional de Paraty: http://flip.org.br

(1) Roger Bastide: sociólogo e antropólogo francês, estudioso da Literatura Brasileira.