terça-feira, 28 de agosto de 2018

Nothing but words...

Caiu na rede


Seu Valdir levantava antes do sol nascer e ia caminhando até a praia com a tarrafa sobre o ombro direito. 
Dona Mercedes, a vizinha da frente, dizia que ele ia cedo assim para pegar os peixes ainda dormindo.
De segunda a sábado, cumpria com rigor de sino de igreja suas pescarias diárias. No domingo aproveitava para descansar porque segundo ele, até os peixes mereciam uma folga. 
Vivia sozinho com o cachorro Julião. O grande amor da adolescência deixou o pescador a ver navios. Benedita se apaixonou por um marinheiro e foi morar no Rio de Janeiro. 
Era um homem simples com um único sonho: queria aprender a ler. Não pudera frequentar a escola pois logo cedo começou a trabalhar para ajudar os pais em casa. Escrever só sabia o nome e sobrenome. A lida no mar foi passada de geração em geração e ele não escapou do destino salgado. 
Foi em uma das manhãs, depois do terceiro puxão na tarrafa, que Seu Valdir pegou dois peixes e um objeto estranho na rede. 
- Não pode ser, Julião! - disse espantado, como se o cachorro entendesse. 
Com todo esmero, retirou da água uma garrafa de vidro contendo um bilhete. Olhou, revirou, sacudiu, mas nada de abrir. Apanhou a cesta que trazia para carregar os peixes e acomodou a garrafa entre os dois fisgados do dia. 
- Dona Mercedes, venha cá ver o que o mar me deu - gritou. 
- Seu Valdir, que maravilha! Não vai abrir? 
- Mais tarde, mais tarde – escondendo o fato que não sabia ler. 
Pegou a garrafa, enrolou em um pano e tratou de colocar nos fundos da cômoda. 
- Julião, preciso aprender a ler de uma vez por todas. Não quero ninguém lendo a mensagem antes de mim. 
A determinação foi tanta que Seu Valdir substituiu as pescarias pelas aulas de alfabetização na cidade vizinha. Pra disfarçar, carregava a tarrafa no ombro e a cesta ia forrada com caderno e lápis. Meia hora caminhando e quase duas de ônibus. Ida e volta. Todo dia.
- Nada de peixe hoje? - perguntava Mercedes.
- Nadinha, Dona Mercedes. Acho que cansaram de mim.
O tempo foi passando e Seu Valdir estava mais seguro em suas leituras. 
- Hoje abro aquela garrafa. 
Já em casa, desenrolou com cuidado o pano que protegia o objeto que tanto se afeiçoara. Colocou o papel, preso com barbante, em cima da mesa e foi preparar um café. O cachorro aproveitou a ausência do dono e correu para abocanhar o papel.
- Julião, não! Me dá isso aqui! 
O cachorro correu para a casa de Dona Mercedes. Por sorte, o filho estava entrando para visitar a mãe e conseguiu salvar um pedaço do bilhete. 
- Seu Valdir, o cachorro comeu o resto. Era carta de algum estrangeiro? Me desculpe.
- De estrangeiro? Como assim?
- Sim, olha aqui. 
As palavras que sobreviveram ao ataque de Julião estavam escritas em inglês. Seu Valdir se irritou. Com o caderno e o lápis das aulas de leitura escreveu uma mensagem. Depois enrolou, colocando de volta na garrafa: 
“Por favor, da próxima vez que jogar uma garrafa ao mar, escreva em português. Prometo deixar longe de Julião. Ass: Valdir. Local: do Brasil”



Ilustração: Erin E. Stead